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Viagens com crianças

  • Foto do escritor: João Núncio Crispim
    João Núncio Crispim
  • 20 de mar.
  • 7 min de leitura

Viajar com crianças para países tropicais pode ser uma experiência inesquecível em família – mas, quando falamos de saúde infantil, especialmente no primeiro ano de vida, a preparação tem mesmo de ser levada muito a sério.


Antes de marcar o voo: é seguro para o meu filho?

Os primeiros 12 meses de vida são o período em que a maior parte das doenças que podem exigir internamento acontece – infeções respiratórias, gastrointestinais, febris e outras situações potencialmente graves. Isto significa que viajar com bebés menores de um ano para países com difícil acesso a cuidados de saúde de qualidade (zonas rurais, ilhas remotas, países com sistemas de saúde frágeis) implica um risco grande, que deve ser ponderado com muita prudência em família.

Sempre que possível, para esta faixa etária, é preferível escolher destinos com:

  • Hospitais com cuidados pediátricos acessíveis.

  • Transporte rápido até uma urgência (sem necessidade de voos internos demorados ou barcos).

  • Possibilidade de evacuação médica, se necessário.

Para crianças mais velhas, o risco é menor, mas a lógica mantém‑se: quanto mais frágil o sistema de saúde local, mais importante é preparar muito bem a viagem e, se possível, ajustar o destino.


Vacinas “base” para viagens tropicais com crianças


Hepatite A: quase sempre a resposta é “sim”

Para grande parte dos destinos tropicais (América Latina, Caraíbas, África, Ásia), a hepatite A é uma das infeções transmitidas por água e alimentos mais frequentes em viajantes, sendo considerada uma das principais doenças preveníveis por vacina em viagem.

Na prática:

  • Recomendo vacinação contra hepatite A em todas as crianças que vão viajar para países tropicais e de rendimento intermédio ou baixo.

  • A vacina faz‑se habitualmente a partir dos 12 meses; em alguns contextos específicos pode ser considerada entre os 6–11 meses, mas essas doses precoces não contam para proteção a longo prazo, sendo necessário cumprir depois o esquema habitual.

  • É indispensável o reforço: recomendo que seja dado cerca de 1 ano após a primeira dose, para garantir uma proteção mais robusta e duradoura antes de viagens futuras.


BCG em contexto de viajante

Muitas crianças portuguesas já não fazem BCG à nascença. Para crianças sem BCG e com menos de 5 anos que vão viajar por períodos superiores a 3 meses para países com elevada incidência de tuberculose (≥40/100.000 habitantes), a SPP/SIP e DGS recomendam a vacinação BCG.


Mosquitos: DEET, Aedes, Anopheles e o que isto significa na prática

Os mosquitos nos trópicos não são todos iguais – e alguns deles transmitem doenças importantes.

  • Aedes – ativos sobretudo durante o dia, associados a Dengue, Chikungunya, Zika.

  • Anopheles – mais ativos ao anoitecer e durante a noite, associados à malária.

Para qualquer viagem a países tropicais, recomendo:

  • Uso de repelente com DEET, pela comprovada eficácia contra Aedes e Anopheles.

  • Adequar a concentração e a forma de aplicação à idade da criança (sobretudo cuidado em lactentes e bebés pequenos).

  • Complementar com roupa leve mas de manga comprida ao fim do dia, redes mosquiteiras, e preferência por quartos com ar condicionado ou, pelo menos, ventoinhas.


Destinos tropicais mais frequentes: o que muda com as crianças?

Brasil

O Brasil é um destino heterogéneo do ponto de vista de risco.

  • Hepatite A: recomendada para todos os viajantes, incluindo crianças.​

  • Febre amarela: recomendada a partir dos 9 meses para a maioria das áreas onde os viajantes vão – nomeadamente muitos estados do Sudeste (incluindo zonas de Rio e São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo) e região amazónica, bem como Foz do Iguaçu.​

  • Malária: risco sobretudo na Amazónia e em algumas zonas rurais do interior; cidades costeiras como Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador têm risco muito baixo, e viagens estritamente urbanas aí raramente justificam profilaxia.

  • Febre tifóide: considerada em estadias prolongadas, viagens com mais contacto com a população local ou fora dos circuitos turísticos clássicos.​

Quando é habitual ser suficiente discutir apenas hepatite A (e eventualmente BCG, se aplicável):

  • Roteiros urbanos/balneares em grandes cidades (Rio, São Paulo, Salvador) de curta duração e estadia em hotéis com boa higiene.

Quando a Consulta do Viajante é quase obrigatória:

  • Qualquer viagem à Amazónia ou a zonas rurais com risco de malária.

  • Itinerários com passagem por várias regiões com febre amarela e estadias mais longas.

República Dominicana

  • Hepatite A: recomendada para todos os viajantes.

  • Malária: risco baixo e focal; a maioria dos resorts nas principais zonas turísticas tem risco muito reduzido. Profilaxia raramente é necessária nos circuitos balneares típicos.

  • Febre amarela: não é endémica; o tema surge sobretudo se houver trânsito prévio por países com febre amarela.

  • Febre tifóide: ponderada em estadias prolongadas, viagens fora de resorts ou com maior exposição alimentar.

Quando, tipicamente, pode bastar o seu pediatra/consulta não especializada (hepatite A, se indicado):

  • Viagens curtas em regime de resort, com boa condição geral da criança.

Quando faz sentido procurar Consulta do Viajante:

  • Estadas mais longas, viagens fora de resorts ou em contexto mais “local” com maior exposição alimentar.

México (Cancún, Riviera Maya e afins)

  • Hepatite A: recomendada para praticamente todo o país, incluindo Cancún e Riviera Maya.

  • Malária: risco muito baixo nas zonas balneares mais turísticas (Cancún, Playa del Carmen, Tulum); regra geral não se recomenda profilaxia para estes roteiros típicos, mantendo sempre boa proteção contra mosquitos.

  • Febre amarela: não endémica.

  • Febre tifóide: recomendada ou considerada sobretudo em estadias prolongadas, viagens mais “aventureiras” ou visitas a pequenas cidades e zonas rurais, com maior exposição alimentar.

Pode ser razoável focar‑se apenas em hepatite A quando:

  • A viagem é curta, centrada em resort, com alimentação dentro do hotel e poucas saídas “de estrada”.

Consulta do Viajante bem indicada quando:

  • A família pretende explorar interior, pequenas localidades, “road trips” ou alimentação de rua de forma mais intensa.

Cabo Verde

  • Hepatite A: recomendada para a maioria dos viajantes.

  • Malária: a OMS declarou Cabo Verde livre de malária em 2024; atualmente não há risco de malária no país.​

  • Febre amarela: não é endémica; pode ser exigida apenas se o viajante vier de país com febre amarela.

  • Febre tifóide: pode ser considerada em estadias mais longas ou fora dos circuitos turísticos.​

Quando tipicamente hepatite A é o foco:

  • Viagens às ilhas do Sal ou Boa Vista em regime de resort, com crianças saudáveis e estadias curtas.

Ainda assim, é sempre fundamental manter repelente e cuidados com água e alimentos, mesmo sem malária.

São Tomé e Príncipe

  • Hepatite A: recomendada.​

  • Malária: país com risco significativo; a regra, para viagens com crianças, é ponderar profilaxia para praticamente todos os viajantes, adaptada à idade e ao peso.

  • Febre amarela: as exigências de certificado podem variar com a situação epidemiológica e com o país de origem/trânsito; deve ser confirmada à data.

  • Febre tifóide: frequentemente recomendada, dada a combinação de fatores alimentares e de saneamento.​

Aqui, a Consulta do Viajante não é opcional – é essencial, sobretudo em crianças pequenas.

Maldivas

  • Hepatite A: recomendada.

  • Malária: as ilhas‑resort clássicas têm risco muito baixo; tipicamente não se recomenda profilaxia neste tipo de estadia balnear.​

  • Febre amarela: não é endémica; pode ser exigido certificado se o viajante tiver estado previamente em país com febre amarela.​

  • Febre tifóide: pode ser considerada em viagens prolongadas ou com estadia em ilhas habitadas locais fora do circuito resort.

Em viagens típicas de resort com crianças, o foco costuma ser hepatite A, reforço do PNV, proteção contra mosquitos e cuidados alimentares.


Consulta do Viajante: quando “é mesmo para ir”?

Regra prática que uso com famílias:

  • Se estiver em causa malária, febre amarela ou febre tifóide – deve haver Consulta do Viajante.

  • Se a viagem for para um resort, de curta duração, em destinos com risco muito baixo de malária e sem febre amarela, muitas famílias conseguem ser orientadas apenas pelo pediatra/pediatra do viajante, focando‑se em hepatite A e reforço das vacinas de rotina.

Mas mesmo nestes casos “simples”, uma avaliação individual continua a ser importante, sobretudo em crianças com doenças crónicas, alergias graves, imunodepressão ou com histórico médico mais complexo.


O que levar na mala: o “kit” de saúde para viagens tropicais

Um kit bem preparado não substitui um médico, mas pode evitar muitas idas desnecessárias às urgências e dar margem de manobra até encontrar ajuda.

Sugestão de base (sempre ajustada pelo pediatra ao peso/idade da criança):

  • Paracetamol – solução ou comprimidos dispersíveis, para febre e dor.

  • Ibuprofeno – solução, como alternativa/associado em febre ou dor, na ausência de contraindicações.

  • Antihistamínico oral – para reações alérgicas ligeiras (urticária, picadas mais exuberantes).

  • Saquetas de soro de hidratação oral – fundamentais em caso de diarreia e/ou vómitos, sobretudo em crianças pequenas.

  • Azitromicina – antibiótico de reserva para diarreia do viajante de provável causa bacteriana e que, não sendo de primeira linha para infeções respiratórias, pode ser útil em infeções respiratórias bacterianas.


Diarreia do viajante: o “clássico” das viagens tropicais

A diarreia do viajante é um quadro de diarreia aguda, muitas vezes acompanhado de cólicas, náuseas e, por vezes, febre, normalmente relacionado com água ou alimentos contaminados (frequentemente por bactérias). Na maioria das crianças saudáveis é autolimitada, mas nos mais pequenos o risco de desidratação é maior.

Sobre a azitromicina:

  • Em viagens para zonas com maior risco de diarreia bacteriana, pode ser prescrita antes da viagem para ter como “plano B”, com instruções claras sobre quando iniciar, dose e duração.

  • Não é para usar em qualquer diarreia ligeira; o foco principal continua a ser a hidratação com soro oral, vigilância de sinais de alarme e procura de cuidados médicos quando indicado.


Como reduzir o risco de diarreia do viajante

Algumas regras simples, que valem ouro com crianças:

  • Beber apenas água engarrafada (selada) ou fervida; usar essa água para escovar os dentes.

  • Evitar gelo, exceto se souber que é feito com água potável.

  • Evitar saladas cruas, fruta já cortada e comida de rua com higiene duvidosa; preferir alimentos bem cozinhados e servidos quentes.

  • Higiene de mãos: incentivar (e ajudar) as crianças a lavar as mãos com água e sabão antes das refeições e após a casa de banho ou usar solução alcoólica quando não há lavatório disponível.​

  • Ter um plano de ação: começar rapidamente soro de hidratação oral em caso de diarreia, vigiar sinais de alarme (prostração, recusa em beber, diminuição marcada da urina) e saber exatamente quando procurar ajuda médica.


Viajar com crianças para países tropicais é possível e, muitas vezes, extremamente enriquecedor – mas não é uma decisão “leve”, sobretudo no primeiro ano de vida e em destinos com pouco acesso a cuidados médicos. Com tempo, planeamento, vacinação adequada, proteção rigorosa contra mosquitos e cuidados alimentares, é possível minimizar riscos e aproveitar o melhor destas viagens em família.

 
 
 

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